Melancia.
Espalhada. Vermelha. Miolos e caroços e líquidos.
A escuridão mais uma vez é invasora, exceto por uma pequena luz no horizonte. O espaço, antes claustrofóbico, é agora aberto, infinito. O frio que sinto é absurdo, porém não é corporal. É, pois, interior. Insignificante que sou, vago às cegas por esse sonho metalinguístico.
Mais uma vez perco a noção do tempo.
Percebo então o cansaço das pernas, quando paro. Não paro por causa do cansaço, visto que não o sinto (a não ser muito distante, desprezível).
Paro, na verdade, por causa de uma melancia.
A sinto a apenas alguns metros. Sim, sinto, não a vejo. Luz não há para ser vista ou ver outro corpo qualquer.
A alcanço, a abro, a devoro e sacio minha sede e fome. À medida que me alimento, a pequena claridade vista ao longe cresce. Mistura-se e vence as trevas. Me vejo então num cenário totalmente branco. Não há relevo qualquer e apenas a melancia verde e vermelha quebra o tédio branco.
Avanço, pois, com a esperança de, quem sabe, uma jaca.