terça-feira, 8 de abril de 2008

sem título

De alva pele, de lisa textura
fora moldada a face, a qual
em estúpidos sonhos, meros devaneios,
toquei.

Harmonizam os cabelos de quase-ruivo,
com os olhos cheios de melodia
tão dominante. És, sim, minha
perdição.

Das minhas metas materiais, da
minha vida sem vida, tu me tiras.
Tiras toda a morbidez de uma
existência.

Longe estás, mas o teu brilho
hei de seguir, em meio à escuridão,
e hei de dizer-te: colhamos o dia, pois




o tempo é curto.

sábado, 22 de março de 2008

Melancia.

Melancia.

Espalhada. Vermelha. Miolos e caroços e líquidos.

A escuridão mais uma vez é invasora, exceto por uma pequena luz no horizonte. O espaço, antes claustrofóbico, é agora aberto, infinito. O frio que sinto é absurdo, porém não é corporal. É, pois, interior. Insignificante que sou, vago às cegas por esse sonho metalinguístico.

Mais uma vez perco a noção do tempo.

Percebo então o cansaço das pernas, quando paro. Não paro por causa do cansaço, visto que não o sinto (a não ser muito distante, desprezível).

Paro, na verdade, por causa de uma melancia.

A sinto a apenas alguns metros. Sim, sinto, não a vejo. Luz não há para ser vista ou ver outro corpo qualquer.

A alcanço, a abro, a devoro e sacio minha sede e fome. À medida que me alimento, a pequena claridade vista ao longe cresce. Mistura-se e vence as trevas. Me vejo então num cenário totalmente branco. Não há relevo qualquer e apenas a melancia verde e vermelha quebra o tédio branco.

Avanço, pois, com a esperança de, quem sabe, uma jaca.

domingo, 16 de março de 2008

(Poli) Sintético


Estava preso em um sonho metalingüístico. Tinha consciência disso. Ao subir e descer os degraus do prédio onde morava, tateando as paredes (a ausência de luz era total), procurava a porta que o (me) levaria ao segundo piso. As horas passavam (dias, anos, séculos, milênios), e a lembrança de qualquer forma de luz se esvaía. Não sentia medo do escuro, nem da idéia de que poderia ficar preso eternamente em algum lugar entre o primeiro e o segundo andar. Sabia que era apenas um sonho, e que logo acordaria num outro sonho, talvez mais assustador e imprevisível, talvez não.
As lâmpadas (existiam antes?) se acendem. Cego por um minuto e quarenta e sete segundos. A visão recupera-se. As paredes, teto e chão estão negros, antes devido às trevas, agora, por causa de milhares, milhões de artrópodes. Baratas, e escaravelhos, e aranhas, e escorpiões, e lacraias, e formigas, e cupins, e gafanhotos. Me cercam, me estrangulam, me partem. Cérebro espalhado.


Melancia.